Gordofobia também é questão de saúde mental
- Thiago Guimarães

- 7 de nov. de 2019
- 6 min de leitura

Não ter roupa do seu tamanho, não passar na catraca do ônibus, não poder sentar em uma cadeira de bar e ser estigmatizado como doente. Esses são alguns exemplos de situações gordofóbicas presentes no cotidiano das pessoas gordas. Para além da discriminação, a gordofobia é a falta de acesso e direitos. É uma ação de exclusão das pessoas gordas. Portanto, as consequências disso na saúde mental dessas pessoas são diversas. Entretanto, isso não costuma ser debatido com tanta frequência ocasionando em uma falta de consciência coletiva quanto à gordofobia ser também uma questão de saúde. “Gordofobia é uma exclusão e claro que vai ter um impacto na saúde mental das pessoas”, afirma a psicóloga Raquel Guimarães.
Comumente, a gordofobia é confundida com a pressão estética, mas há uma grande diferença entre os dois conceitos. Enquanto uma exclui as pessoas gordas, a outra é uma pressão social para estar dentro do padrão estético. A pressão estética não afeta apenas pessoas gordas, qualquer pessoa que está fora do padrão de corpo perfeito é afetado. O resultado são homens e mulheres insatisfeitos com seus próprios corpos e com baixa autoestima. E, no senso comum, a solução para isso é recorrer a dietas restritivas e fazer exercícios físicos para emagrecer. Algumas pessoas, principalmente mulheres, recorrem a cirurgias plásticas. Além disso, algumas pessoas sofrem com distúrbios alimentares e tomam remédios para emagrecer. Nesse sentido, a pressão estética não é algo exclusivo das pessoas gordas, mas a gordofobia sim.
A acessibilidade não é pensada para as pessoas gordas, pois há o ideal de que essas pessoas devem emagrecer ao invés de ter adaptações específicas para elas. Nos últimos anos, as catracas dos ônibus foram reduzidas de tamanho, com a colocação das catracas duplas afetando diretamente as pessoas gordas. Anteriormente, algumas já não passavam nelas, mas após a mudança isso piorou. “Eu só fui tomar conhecimento de que a diminuição da catraca é também um ato de gordofobia com a minha professora que é gorda e estuda essas questões e me disse isso”, relata Camila Mesquita, 21, estudante de Publicidade na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Se você passa por esse tipo de situação e é constrangido, você está passando por um tipo de violação ao seu corpo.” Muitas vezes a única solução para isso é a pessoa gorda ter que entrar pela porta traseira do ônibus. Camila revela: “Minha mãe ainda é maior do que eu. É um constrangimento eu ter que pedir para abrir a porta de trás para a minha mãe poder entrar no ônibus”.
Até mesmo sair de casa para encontrar outras pessoas se torna uma tarefa difícil para as pessoas gordas. Elas têm que, muitas vezes, passar pelo constrangimento de questionar se o lugar em que estão pensando em ir possui cadeiras que as comportem. Na maioria dos bares, as cadeiras são de plástico e os donos dos estabelecimentos não pensam que pessoas gordas não cabem nessas cadeiras por serem pequenas e não aguentarem o peso delas devido à fragilidade do material. “Às vezes eu tenho que pensar na roleta que eu vou passar até a cadeira do bar que eu vou sentar porque ela tem que comportar o corpo que eu tenho”, conta Camila.
Pensar em gordofobia, também é pensar em moda. As pessoas gordas são marginalizadas pelas indústrias desse ramo. As lojas que as atendem são, majoritariamente, apenas lojas plus size. Carol Kerbidi, 34, empresária e blogueira, sempre teve uma fissura muito grande pela moda. Um dos motivos principais pelos quais queria emagrecer era para poder se vestir bem e ter a roupa que desejava vendo nos corpos magros. “A gente tinha acesso a roupas antes que cabiam, não que a gente gostaria, mas tinha que satisfazer pelo que cabia e acabava não sendo suficiente”, diz Carol. Para atender suas próprias demandas e desse mercado, a empresária fez diversas pesquisas e, em 2018, criou sua própria loja de roupas plus size. “A medida que a gente foi amadurecendo, começamos a perceber que existia um movimento do mundo dizendo que essa diversidade importava e a gente não tinha que se mudar para caber na moda e sim o ao contrário”, analisa Carol.
A forma mais nítida da gordofobia é a estigmatização das pessoas gordas como sendo doentes apenas por serem gordas. Através de uma falsa preocupação com a saúde, elas são questionadas sobre o motivo para não emagrecerem. E junto a isso, aparecem também os julgamentos de que pessoa gorda só é assim porque quer, como se não emagrecer fosse um ato de preguiça e falta de esforço. “Existe o estigma de que as pessoas gordas não são saudáveis, mas não existe essa relação. Isso é total estigma”, informa a nutricionista Camilla Estima, . “Não existe essa regra, tem pessoas gordas com exames bons e ruins e pessoas magras com exames bons e ruins.”
Esthefanie Duchini, 22, influenciadora body positive, é um retrato disso. Os comentários de sua família a seu respeito, para ela, eram uma preocupação com sua saúde. E para lidar com isso ela recorreu a dietas. A influencer revela: “A busca pelo corpo perfeito não é nada saudável, eu já fiz loucuras com o meu corpo de dieta e isso não é saudável”. Por causa disso, sua saúde mental também foi muito influenciada, levando-a a ter insegurança por ser gorda. Ela teve ansiedade e crise de pânico, sempre se questionando e duvidando de si mesma. Isso afetou a influencer até mesmo em entrevistas de emprego. “Eu sempre que fazia entrevista de emprego sentia que o fato de eu ser gorda iria me fazer não conseguir”, diz Esthefanie.
Na nutrição tradicional, os nutricionistas utilizam a fórmula do Índice de Massa Corporal (IMC) como uma forma de classificar o estado nutricional das pessoas. O cálculo é feito a partir das medidas do peso e da altura, sendo o peso dividido pela altura ao quadrado. Isso gera um valor que é classificado em uma escala. O problema é que essa escala do IMC é uma das formas de avaliar o estado nutricional das pessoas, e resultando nesse julgamento de que a pessoa é gorda. “Quando usamos o IMC não dizemos que a pessoa está gorda, ela está com sobrepeso ou estágio de obesidade”, afirma a nutricionista.
A questão em relação ao IMC é que a nutrição é reconhecida atualmente apenas por isso. E a partir disso, muitas pessoas e até mesmo profissionais da área reduziram a profissão ao emagrecimento. Com isso, o atendimento às pessoas gordas se restringiu à gordura corporal delas e isso as constrange, por não receber o tratamento adequado. E isso leva a um medo de ir em nutricionistas, porque já tem a cultura de que eles irão demonizar a comida. “A nutrição é extremamente gordofóbica!”, exclama a nutricionista. “É fundamental discutirmos isso como nutricionistas e para os outros profissionais, porque atendemos pessoas de todos os tipos de corpos e as pessoas tem que ser acolhidas por nós, e não estigmatizadas e afastadas.”
O impacto da gordofobia na saúde mental das pessoas gordas é enorme e são vários os fatores responsáveis por isso. “A pessoa gorda tem mais sintomas depressivos e ansiosos por conta da gordura ou por conta de como a sociedade reage a essa gordura?”, questiona a psicóloga Raquel Guimarães. “Pra mim faz muito mais sentido ser a segunda opção.” Uma das vertentes atuais que ajuda as pessoas a lidar com isso é o Body Positive. No Brasil, o movimento é muito focado nas questões que envolvem o corpo gordo. O body positive visa a imagem corporal positiva independentemente de como seu corpo é. Essa aceitação não significa preguiça de emagrecer e muito menos conformismo. “É ver o nosso corpo como algo positivo. Está tudo bem com o seu corpo, é ser você e está tudo bem”, afirma a influenciadora body positive Esthefanie Duchini.
Antes de compreender isso e se aceitar, Camila Mesquita passou por um momento conturbado em relação a sua saúde mental. “Eu tive crises de ansiedade e com o tempo fui entendendo que, ao invés de repelir aquilo, eu tinha que entender que aquilo era uma das minhas melhores coisas, não de ser um corpo gordo, mas ser uma pessoa que se aceita do jeito que é”, relata a estudante. Contudo, a aceitação corporal é um processo, não é rápido e muito menos fácil de lidar. “Não existe linearidade em nenhum processo interno”, esclarece a psicóloga Raquel Guimarães. “Terão dias mais tranquilos e dias que serão mais difíceis, e esses não anulam todo o processo.”
A visibilidade gorda também é um caminho para combater a gordofobia. Promover essa visibilidade é permitir que corpos gordos ocupem espaços antes negados a eles. “Então, quando a gente pensa em corpo gordo, a gente tem que pensar também em como esses mecanismos por muitas vezes que nos silenciaram têm que se fazer valer pela representatividade”, analisa Camila Mesquita. “Desde um anúncio em uma revista com uma modelo plus size usando calcinha e sutiã até em uma cadeira maior no seu bar, porque qualquer corpo tem que ser bem vindo ali”
A saúde mental de uma pessoa está relacionada diretamente à forma como ela reage às exigências da vida. Por isso, a gordofobia é uma questão de saúde mental e deve ser tratada como qualquer outra questão que leve a problemas mentais. É difícil se manter saudável mentalmente enfrentando problemas cotidianos de acessibilidade, estigmatização social e discriminação. O debate sobre a gordofobia precisa ser aumentado e aceito pela sociedade. E as pessoas gordas precisam buscar ajuda e tratamento não para a gordura corporal, mas sim para sua saúde mental. “Qualquer questão que esteja de alguma maneira impactando a saúde mental tem que ser tratada. Vale a mesma atenção do que uma dor física”, informa a psicóloga Raquel Guimarães. “A saúde mental importa e ela tem que ser cuidada sempre.”


Comentários