Vida de Freelancer: como jornalistas se tornaram profissionais Freelancers
- Thiago Guimarães

- 28 de nov. de 2019
- 3 min de leitura

Não é uma questão de escolha. Eles optaram pela formação em Jornalismo e pelo trabalho em redações. Entretanto, a crise do jornal impresso levou à demissão em massa que resultou na precarização da profissão. Com isso, a maioria dos profissionais demitidos precisaram se adaptar a uma nova realidade, o trabalho como freelancer. “Quem se agarra ao emprego formal está perdendo tempo”, afirma o jornalista Aydano André Motta, de 54 anos. “É o futuro do Jornalismo.”
Contudo, ser freelancer também se tornou uma oportunidade. Alguns jornalistas puderam se dedicar a seus próprios veículos de imprensa através de blogs e sites. Ruben Berta, de 43, trabalhou no Jornal O Globo por 17 anos até ser demitido. Depois de um tempo perdido, sem saber muito bem o que fazer, decidiu abrir seu próprio site, o Blog do Berta. “Não tinha muita ideia do que ia conseguir com aquilo”, revela Ruben. Além dele, Lúcio de Castro, de 51 anos, encontrou na Sportlight, sua agência de jornalismo investigativo, uma forma de valorizá-lo. “O jornalismo brasileiro não privilegia essa área”, admite o jornalista.
As características necessárias para ser um jornalista não são alteradas pelo modelo de trabalho. A disciplina para cumprir prazos e a organização diária se mantém fundamental para o profissional. Porém, há alguns aspectos que são indispensáveis, principalmente, para o jornalista freelancer. Um desses é a versatilidade, pois ele precisa estar pronto para a maior quantidade de trabalhos possíveis. Ao mesmo tempo, ter discernimento é importante para saber quais trabalhos aceitar e quais rejeitar. “Esse talvez seja o maior desafio”, diz Aydano.
Os clientes são os decisores na contratação dos jornalistas. Quando procuram pelos profissionais para produzirem uma reportagem, os clientes definem os prazos e quanto eles estão dispostos a pagar. Geralmente, as empresas são os principais clientes dos freelancers. Para eles resta a negociação que é, na maioria das vezes, difícil. Os prazos para entregar o material final são curtos. “Quem contrata um freelancer não quer um problema”, diz Aydano. “E o prazo é como um dominó.” Isso reflete também na negociação do valor a ser pago, pois o tempo é o principal fator na cobrança pelo trabalho. “Em média se paga muito mal”, afirma Ruben. “É uma realidade de trabalho mais precário.”
Em comum, Ruben, Aydano e Lúcio vivem exclusivamente por seus trabalhos como freelancers. E essa é a realidade de muitos jornalistas freelancers, mas também se torna um problema devido à insegurança financeira. O emprego formal é fixo, portanto o salário é recebido regularmente. Como freelancer, o salário final depende dos trabalhos que o profissional realiza durante o mês. “Acho que eu ganhava melhor com o trabalho formal naquela época”, analisa Aydano. A estabilidade financeira é o desafio principal para o jornalista freelancer. “Temos boletos e é difícil de conseguir”, analisa Ruben. Outro problema é em relação as férias não serem remuneradas. Por não trabalhar em regime de carteira assinada, os freelancers também precisam deixar dinheiro reservado para pagar as contas enquanto tiram férias.
Ser jornalista freelancer também deixa o profissional mais suscetível aos riscos. Em casos de processo judicial o freelancer não tem o resguardo de um jornal que irá tomar a frente nessas situações. Além disso, a segurança do jornalista fica mais frágil também por esse motivo. Para evitar tudo isso é necessário um cuidado extra com cada palavra empregada. E há também outros problemas menos graves, mas que são um desafio para esses profissionais, como o acesso a pessoas e eventos. “O freelancer tem menor respaldo, tem menor proteção jurídica, tem menor acesso a grandes figuras, ao poder e eventos. Mas por isso tudo o trabalho acaba ser mais criativo”, declara Lúcio.
Ainda que tenham riscos e problemas, a vida de freelancer também tem benefícios. A flexibilidade é o principal deles já que eles não possuem uma rotina fixa. Apenas os prazos são fixos. O ambiente de trabalho agora pode ser em qualquer local, perdendo a rigidez das redações tradicionais. Em geral, eles trabalham de casa ou em espaços de coworking. “Eu busco trabalhar no meu tempo. E gosto de publicar a matéria apenas quando ela está pronta”, comenta Ruben.
As redações, atualmente, estão cada vez mais com menos jornalistas e mais trabalho. Ao passo que os veículos mais jovens trabalham mais como freelancers por ser mais barato. Com a internet se tornou mais fácil para qualquer pessoa criar um site, a dificuldade é alcançar leitores e manter uma audiência. “Na teoria é fácil trabalhar dessa forma, difícil é ganhar dinheiro”, revela Ruben.


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