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O resgate da criança interior de Rina Sawayama

  • Foto do escritor: Thiago Guimarães
    Thiago Guimarães
  • 25 de set. de 2022
  • 6 min de leitura
Dois anos depois de seu álbum de estreia, Rina Sawayama lança seu o novo disco buscando curar as dores de sua criança interior

Capa do single “This Hell” da Rina Sawayama

Desde criança começamos uma fase de crescimento em nossa vida. Crescer requer passar por diversas situações em que nos sentimos desconfortáveis. Esse período tem suas alegrias, mas também tem seus desafios e dificuldades que muitas vezes podem deixar traumas. Alguns desses podem não se curar ao seguirmos adiante sem olhá-los com atenção. Assim, foi o processo de criação de Rina Sawayama para o seu novo álbum “Hold The Girl”. Através de sessões intensas de terapia, a cantora buscou lidar com traumas não resolvidos de sua adolescência.


Dessa forma, o disco foi construído pelos insights que Rina tinha nessas sessões com seu terapeuta. “Hold The Girl” é sobre segurar a sua criança interior falando diretamente com a menina que Rina um dia foi e que passou por tudo que aconteceu em sua vida. Ao fazer esse resgate de momentos de dor sendo aberta e honesta em suas letras, a cantora nos entrega um álbum pop com alto poder curativo. Rina Sawayama é uma cantora japonesa que se naturalizou britânica e aos seus 32 anos transforma sua história em músicas de sucesso.


Capa do álbum “Hold The Girl” da Rina Sawayama

“Hold The Gil” tem treze músicas e foi lançado no dia 16 de setembro pela gravadora Dirty Hit. O disco, que foi gravado entre 2020 e 2021, conta com a produção de Paul Epworth, Stuart Price e Clarence Clarity, colaborador antigo e responsável pela produção da maior parte do “SAWAYAMA”, álbum de estreia de Rina. A sonoridade é pop, em sua maioria, mas recebe influências de outros gêneros como pop rock, rock progressivo, rock alternativo dos anos 90, música country, hyperpop e folk.


Apesar de uma grande diversidade de gêneros musicais, “Hold The Girl” é um projeto mais introspectivo em suas melodias, muito influenciado pelas letras que analisam momentos mais dolorosos. Além disso, ele foi composto e produzido durante a parte mais dura da pandemia, o que com certeza influenciou no processo de construção musical. O disco é muito diferente musicalmente de seu antecessor que foi lançado em 2020 ainda durante o início da pandemia. O álbum de estreia de Rina, “SAWAYAMA”, tinha uma presença muito forte com um pop marcado por batidas mais eletrônicas, músicas que exploravam o rock com as guitarras tendo um destaque maior e até mesmo as baladas tinham sua potência. A sua essência era muito mais expansiva e extrovertida.


Imagem promocional do álbum “SAWAYAMA” da Rina Sawayama

Em “Hold The Girl”, Rina parece ter caminhado na direção oposta. Ainda assim, a cantora nos entregou um álbum pop da melhor qualidade que está sendo aclamado pela crítica e por seus fãs. O disco é uma verdadeira jornada de crescimento pessoal mostrando a maturidade, a honestidade e a busca pelo autocuidado, se empatizar com seu eu mais novo e se encontrar. Ao final dessa trajetória, Rina Sawayama sente uma alegria pura pela primeira vez em muito tempo, se sentindo viva e pronta para uma nova fase de sua vida.


Para se aprofundar ainda mais em toda essa experiência e na jornada de “Hold The Girl”, leia também abaixo o mergulho no significado das letras de cada música no Faixa a Faixa:


Tracklist do álbum “Hold The Girl” Rina Sawayama
  1. Minor Feelings

A faixa de abertura do disco define o tom do álbum ao Rina refletir sobre como ela se sentiu fora de lugar em sua vida e como os sentimentos menores a fizeram se sentir mal. São as emoções que a cantora tentou esconder, demorou para reconhecer e quanto mais ela os guarda, mais se sente sendo enterrada viva. Agora, esses sentimentos estão começando a afetá-la, dando início a sua trajetória dentro do álbum. O título da música faz referência ao livro de mesmo nome da poeta Coreana-Americana Cathy Park Hong sobre a marginalização da experiência de Asiático-Americanos.


2. Hold The Girl

A faixa título do álbum foi a primeira música a ser escrita. A letra fala sobre alcançar sua criança interior lá no fundo e segurá-la por perto fortemente. Rina reflete sobre ter deixado a sua versão mais nova abandonada ao tentar, às vezes, deixar seu antigo eu para trás e recomeçar. Porém, dessa forma, estaria abandonando a criança que um dia foi e que agora ela quer resgatar. A sonoridade transita entre uma balada calma para um música pop indie mais dançante.


3. This Hell

A música foi o primeiro single a ser lançado dando início a nova era da cantora. É uma faixa pop dançante com elementos da música country. A cantora celebra o amor e a comunidade LGBTQIAP+ da qual ela faz parte. A letra faz uma referência a crenças religiosas que dizem que as pessoas LGBTQIAP+ vão para o inferno, contribuindo para o preconceito e retirando direitos da comunidade. A intenção de Rina é reivindicar o inferno como o espaço que pode ser melhor estando ao lado de quem amamos, mas também se referindo à vida.


4. Catch Me In The Air

A faixa detalha o relacionamento de Rina com sua mãe solteira e como elas se apoiaram através de momentos difíceis. A letra começa do ponto de vista da mãe querendo que sua filha esteja pronta para ver o mundo e que este esteja pronto para receber sua filha. Depois a música muda para a perspectiva de Rina que espera que tenha deixado sua mãe orgulhosa com quem ela se tornou e com tudo que conquistou.


5. Forgiveness

A música é sobre a cantora ter percebido que ao invés de esconder uma experiência passada tentando esquecê-la, ela precisa enfrentá-la e perdoar a outra pessoa. Ainda assim, o ato de perdoar é uma estrada sinuosa já que não é algo linear e nem tranquilo.


6. Holy (Til You Let Me Go)

A faixa descreve a experiência que Rina passou ao estudar em uma escola religiosa só para meninas e como isso a fez sentir que só poderia ser amada se fosse boa e pura nos moldes da Igreja. A sua experiência foi traumática por se sentir errada e inadequada quando diziam que ela era do mal. Na letra ela explicita que encontrou a paz ao perder sua religião. É uma música com uma sonoridade pop com um lado mais sombrio.


7. Your Age

A música trata da raiva que Rina sente ao detalhar sua descrença nos comportamentos de adultos que foram permitidos durante a sua juventude nos anos 90. Agora sendo adulta em um novo momento da sociedade as coisas mudaram, mas a raiva de sua juventude permanece.


8. Imagining

A faixa é sobre gaslighting e a espiral em que você entra ao perceber que a versão da verdade que você acreditou não era totalmente verdade. O gaslighting é uma forma de abuso psicológico na qual informações são distorcidas, inventadas ou seletivamente omitidas para favorecer o abusador com a intenção da vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. Rina se questiona se ela não estaria imaginando confirmando estar em uma espiral de gaslighting.


Imagem promocional do ´’Hold The Girl” da Rina Sawayama

9. Frankenstein

A música é sobre como Rina se apoiou em seu parceiro(a) para ajudá-la a se recompor, mas percebendo que isso não era trabalho dele ou dela. A sonoridade é um indie rock inspirado na Bloc Party.


10. Hurricanes

A faixa trata sobre autossabotagem e encontrar a luz mesmo no meio do caos. Rina fala sobre como sempre buscou ser a melhor em tudo e como isso acabou despertando e trazendo o pior para ela. A sonoridade cresce no refrão com a explosão da bateria, o que remete bastante ao estilo de seu primeiro álbum.


11. Send My Love To John

A música é uma balada acústica com uma sonoridade mais folk. A letra é escrita na perspectiva de uma mãe imigrante se desculpando com seu filho gay por não tê-lo aceitado por conta de suas crenças religiosas. A faixa foi inspirada na história de um amigo da cantora e John é o namorado de longa data dele. Após anos da sua mãe não o aceitando, ela terminou uma ligação dizendo “envie meu amor ao John”. A música nasceu da necessidade de Rina escrever um pedido de desculpas para quem precisasse e não receberia por estar em uma situação como essa.


12. Phantom

A música é sobre a percepção de Rina de ter passado toda sua vida tentando agradar aos outros sem perceber o quanto fazia algo porque ela queria ou para suprir expectativas alheias. “Phantom” é o fantasma do eu real que foi se perdendo com o tempo por conta da sua atitude de viver para agradar os outros, sem se priorizar. Agora, a cantora busca mudar esse padrão de comportamento.


13. To Be Alive

A última música do álbum encerra a trajetória com Rina finalmente alcançando um estado de alegria pura e se sentindo viva depois de tanto tempo. Ela fala sobre o quanto fez seu mundo pequeno sendo prisioneira das paredes de seu quarto, o quanto foi sua própria inimiga e como se envolveu pela escuridão. Apesar de não estar onde deseja com sua saúde mental, a música a lembra que é possível sentir uma alegria pura e que ela é capaz de ser feliz e se sentir viva. A música tem uma melodia pop que se eleva com as batidas por trás da letra fazendo alusão a vida e a alegria.


Ouça agora o álbum nas plataformas digitais:




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